...e eu estou acordada vendo seriados em um volume bem baixo. É bom ter a casa só para mim e fazer as coisas no meu ritmo. Às vezes penso em como as pessoas que têm filhos fazem para ter momentos de silêncio e solidão e tenho essa hipótese de que elas tomam banhos um pouco mais demorados do que o normal ou de que simplesmente são seres mais evoluídos que eu. Eu tenho essa necessidade de estar em um ambiente menos barulhento do que a maior parte das pessoas parece achar aceitável. E preciso muito ficar sozinha de vez em quando. Eu prefiro dormir em ambientes bem escuros e silenciosos. Gosto de pessoas, de conversas, de coisas alegres e de estar em ambientes ruidosos eventualmente, mas preciso de um pouco de paz todos os dias.
O minimalismo, a vida simples, o consumo consciente... tudo isso são formas de diminuir os ruídos e os excessos que me sufocam. Assim fica mais fácil perceber quem eu sou, o que preciso fazer, o que quero fazer e como as coisas estão. Eu não me perco na confusão de muitas coisas, muitos nomes, muitas marcas, muitos sons, etc. Eu encontro um certa ordem que me faz bem. Há algo de muito agradável em me deitar em uma cama com lençóis recém trocados de algodão com aquele cheiro de roupa limpa, ao lado de uma pessoa maravilhosa que dorme, com a casa em silêncio e o som de um apito de trem que corre nos trilhos cruzando a cidade. Existe uma felicidade imensa em acordar num domingo e saber que as pessoas que eu amo existem, que o mundo está vivo mas que eu posso ficar por alguns minutos na cama, quieta, olhando para o ângulo branco formado por duas paredes que se encontram no canto do quarto. E é tão bom quando viajamos e eu dirijo (eu sou a motorista oficial) ouvindo música num som não muito alto, sentindo o vento bater nos meus cabelos por uma fresta da janela aberta enquanto escuto uma ou outra frase feliz que vem interromper os meus devaneios mas não se transforma necessariamente numa conversa - algo como "Você quer água?" ou "Acho que vamos chegar lá na hora do almoço".
O minimalismo vem transformando muito a minha vida e estou tentando me despojar de tudo que não é importante, necessário ou construtivo. Gente, é difícil, mas é bom e eu recomendo. Estou aprendendo muitas coisas. Estou reaprendendo a curtir os silêncios e essa solidão feliz de quem não é realmente sozinho. Ser psicóloga tem sido difícil e estou aprendendo que tudo que é vivo sofre muito... mas que a gente continua vivo apesar do sofrimento, então só nos resta aprender com nossas experiências e lutar para que as coisas sejam melhores e mais justas. Às vezes só contemplando as coisas eu consigo me desligar de tudo isso. E estou cada vez menos interessada em longas conversas e diplomacia... tudo que eu quero é estar em paz. E se antes eu pensava que estar em paz tinha a ver com pensar, hoje eu percebo que tem a ver com existir. Então se brigamos e o que eu realmente quero é estar perto de você, vou me reaproximar. E se você me fizer mal, vou me afastar. Se eu penso A, a minha vontade toda é de dizer A; se eu penso B, eu só quero mesmo é B. Toda a minha fisiologia deseja estar em paz com a minha psiquê. Todo o meu corpo quer ser também mente e essa ideia me acalma. E caminho, gradualmente, em direção a uma vida menos complicada ou assim eu espero. Uma vida em que eu possa simplesmente ser eu, sem grandes ruídos, sem grandes sufocamentos, sem essa loucura insana que me impede de respirar e também sem aquela tristeza e angústia enlouquecedoras da minha adolescência. E eu sei lá o que é isso, mas eu vislumbro a existência desse jeito de existir.
Eu olho para frente e vejo o que eu quero pra mim. E isso não tem um formato definido, mas é uma coisa mais simples do que o que eu sou agora. E agora (não, não estou inventando), o silêncio da minha casa passou a ter som de chuva caindo no telhado. Eu quero ver a realidade como ela é, e quero conseguir lidar com ela. Eu quero ter menos medo das coisas e de mim mesma. E não quero mais comprar coisas pra preencher tantos buracos, nem ter uma rotina frenética para não ter tempo de pensar, nem comer um monte pra calar alguma angústia, nem manter conversas longas e complexas por medo de dizer de forma direta e franca o que eu realmente penso. Eu quero fazer o exercício doloroso, revelador e libertador de entrar em contato comido mesma. Eu quero abraçar a vida e me entregar completamente a ela sem que isso signifique uma impossibilidade de cuidar de mim e de me proteger na medida certa. Eu quero essa sensação inexplicável que só o desapego parece ser capaz de trazer nesse momento da minha vida.
Marina
