sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Aquilo de que eu não me desfaço

Hoje estou especialmente reflexiva porque recebi um e-mail de uma pessoa querida, dessas que foi amiga de adolescência e era como unha e carne, com quem a gente fumou o primeiro cigarro, pagou mico, bebeu Hi-Fi falsificado com Fanta em vez de suco de laranja, pulou Carnaval na época em que ainda semi-aturava-axé-apesar-de-gostar-mesmo-é-de-rock-e-mpb, conversou de madrugada, colou na prova, comeu bolo solado, viajou. Enfim. Psicanalista agora, essa amiga. E leitora do blog, que nem sei como chegou aqui, porque há anos não tínhamos contato.

Além desse mail recebi também mais alguns que já estava enrolando há teeeeempos pra responder... Aparentemente o blog continua vivo, mesmo sem eu escrever muito. Aliás,  eu e a vida simples continuamos vivinhas da silva apesar de eu escrever tão pouco.

No momento a vida simples corre tão bem que me sinto uma pessoa cada vez mais feliz e mais realizada. Isso e os problemas, claro. Problemas fazem parte do pacote. Às vezes sou tão intensamente feliz que dá medo. E aí,  na lida de procurar jeitos de lidar com o medo eu só encontro soluções que me melhoram: ser mais generosa, ser mais honesta, ser mais altruísta,  fazer uma bela d'uma autocrítica e por aí vai. Isso e os problemas, lógico. Tem momentos em que quase enlouqueço,  mas isso faz parte de ser eu e já acostumei: resolvi que essa confusão toda é boa, boa demais. 

Eu acho que hoje eu queria dizer mesmo isso: o tempo passa, coisas variadas acontecem (as planejadas, as aleatórias,  as violentas, as maravilhosas, etc.), mas algo sempre retorna. Nessa busca por uma vida mais significativa, por consumir melhor para não ser consumida, por me sentir parte de uma comunidade que se preocupa com o mundo e por isso está atenta à cadeia produtiva, em meio a tudo isso há questões, temas, pessoas, ideias, sentimentos que retornam. Eu peneiro, peneiro, peneiro... Destralho, aí destralho de novo, aí ainda me livro de mais algumas coisas.... Edito, diminuo, simplifico sempre buscando chegar a algo que seja essencial... e algo fica na peneira, há algo que eu guardo de volta dentro do armário; algo precioso, útil ou inútil, prático ou subjetivo, concreto e gasoso como um livro, uma mesa e uma lembrança, algo permanece. Inexplicável,  às vezes o que eu escolho guardar pode ser racionalizado numa tentativa humana de fazer sentido. Viver de forma mais simples tem mais a ver com o que eu preservo do que com as coisas de que eu me despojo. Porque quando eu resolvi ter menos coisas, todas as coisas que eu amava e que me faziam feliz se destacaram. Algumas eu nem conhecia. Antes eu tinha menos do que agora.


Marina Paula

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Tédio e desejo de comprar

Hoje, na hora do almoço, comi rápido e saí para fazer compras. O que eu ia comprar era um mistério total, uma vez que não precisava de nada, ou pelo menos não de coisas que posso pagar nesse momento. 

Dirigi em direção à rua que tem mais comércio no bairro. Um brechó no caminho não me atraiu suficientemente a ponto de parar. A loja de shampoos e sabonetes também não,  afinal de contas tenho esses produtos em casa e comprei um shampoo ontem. Estou precisando de algumas peças de roupas bem específicas que não encontraria por ali. Quebrei a cabeça e não me ocorreu nada de que realmente precisasse ou que pelo menos desejasse comprar. 

Acontece que hoje eu estou bem melancólica e entediada. Nada me anima. A perspectiva de ir ao cinema, a ideia de ir tomar um café e escolher um bom livro, de chegar em casa e preparar alguma coisa gostosa pra levar para almoçar amanhã,  nada disso está me chamando atenção. Estou triste e nada concreto cura a minha tristeza hoje. Os motivos são muito meus... 

O fato é que às vezes eu me assusto com esse estágio de não querer quase nada. Outro dia comprei dois sapatos de que precisava muito e foi ótimo,  mas aquele prazer de sair e comprar qualquer coisa nunca mais existiu em sua forma pura. Quando eu tenho vontade de sair e comprar é como foi hoje: saio, dou uma volta, chego a entrar rapidamente em lojas variadas e vou embora sem comprar nada. Frustrada, acabo achando tudo aquilo um desperdício enorme de tempo e gasolina. 

Isso de querer comprar por comprar é parecido com o que eu fazia com o cigarro e ainda faço com a comida: automaticamente me volto para algo que supostamente é prazeroso em momentos de tédio e desânimo. Problema é que o cigarro só causava mais dor de estômago (parei de fumar há alguns anos), a comida só me deixava meio anestesiada, enjoada, com azia e mais gorda e as compras só encheriam a casa de coisas inúteis e consumiriam meu dinheiro. E isso tudo tem a ver com tédio,  com um tédio existencial enorme e tosco... 

E eu me sinto um pouco desprotegida, assim sem recursos superficiais para me defender desse tédio,  para fingir que essa tristeza não está acontecendo. Curar tudo com um cigarro, um chocolate ou uma sacola de compras era fácil e parecia eficaz em tempos passados. Hoje sobra o que? Hoje como é que eu me acalmo? Meu expediente de distrações e coisas prazerosas está minguado e já tenho pedalado demais, assistido a seriados em excesso, lido bastante, arrumado a casa... Acho que em alguns momentos a vida é meio chata mesmo e não há nada que possa ser feito a respeito disso a não ser continuar vivendo e esperar a sensação ruim passar sem dar bola demais pra ela, sem deixar também que ela cresça. Comprar alguma coisa não vai fazer passar. Nem comer, nem fumar, nem fazer qualquer uma dessas coisas que acabam sendo destrutivas e depois deixam a gente com ressaca moral... 

Marina

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O chocolate está pela hora da morte....

Oi gente. Não vou entrar num de explicar meu sumiço, então vou direto ao assunto de hoje. 

Tenho participado de conversas aleatórias sobre a Páscoa e os planos do pessoal de comprar ovos de chocolate. Aí, fui olhar os preços e os achei... absurdos, ridículos, abusivos. Ouvi falar que rola uma campanha para que as pessoas comprem barras de chocolates em vez de ovos, mas na prática todo mundo parece estar comprando os ovos mesmo. O motivo principal? Brinquedos. Dentro dos ovos que estão associados a personagens ou marcas infantis sempre vem um brinquedo. E a criançada quer o brinquedo. Se o chocolate é bom ou não é, se o ovo é grande ou não, tanto faz. O que importa é o brinquedo, o resto é bônus. Acho deprimente que seja assim e imagino que estaria arrancando todos os fios de cabelo se tivesse filhos!

Também ganhei chocolate de presente. Bastante chocolate. E eu estou numa de tentar me alimentar melhor, então o chocolate acaba complicando a minha vida. Eu curto o carinho, o afeto, tudo isso, mas uma caixa de chocolates invariavelmente resulta num episódio de compulsão alimentar... Como uma garrafa de bebida na casa de um alcoólatra. Resultado disso é que estou distribuindo chocolate a rolé e de repente todo mundo me acha generosa (posso até ser, sei lá, mas a minha motivação atual é me livrar do chocolate mesmo). Para os mais próximos eu comprei chocolate pra dar de presente... mas pouco chocolate. Pouco mesmo. Todo mundo é bem saudável e está tentando manter ou perder o peso.

O que me surpreende, provavelmente devido ao fato de eu vir de uma família que comemorava a Páscoa de forma nada tradicional, é a quantidade de dinheiro que as pessoas gastam com isso, o volume de chocolate que é dado de presente para uma mesma pessoa e a euforia que cerca o tema. Às vezes chego à conclusão de que a imensa maioria das pessoas vive escravizada por todas essas convenções que nos dizem o que consumir, em que época e de que forma. Na Páscoa, ovos de chocolate. No dia dos namorados, flores, doces, presentes em geral. Dia das crianças, brinquedos. Natal, presentes em geral. E assim segue a boiada... Pouca gente tem coragem de romper com essas tradições, muitos não romperiam com elas mesmo que pudessem pois adoram o frenesi consumista e vários, como eu, aderem com maior ou menor intensidade a algumas dessas datas associadas ao ato de consumir. Fico com dó de quem ganha salário mínimo e de repente, no meio de abril, "tem" que comprar ovos da Páscoa para 3 filhos e 2 netos. Aí, logo, logo, chega outra data. E a sensação de controle sobre o próprio salário se perde entre fitas e embalagens de presente. A pessoa começa a se sentir refém de tudo isso... A pressão para que a tradição dos ovos de chocolate continue é fortíssima. 

Alguém aí tem dicas para lidar melhor com isso? 

Marina

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