segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Eu, fazendo as unhas na esmalteria

Oi gente,

Aconteceu de abrir uma padaria bacaninha que vende umas coisas diferentes num bairro vizinho. O meu bairro é mais simples, só tem padaria que vende o trivial mesmo. Aí criei hábito de passar na padaria diferente em dia de querer coisas diferentes e eis que, ao lado da dita cuja, vislumbro uma lojinha meio cor de rosa. É uma esmalteria. Eu, que não me divirto comprando esmalte mas não tenho nada contra quem curte a coisa, pensei assim, que onde vende esmalte devem fazer as unhas e lá fui anotando o número do lugar para depois ligar e agendar uma manicure.

Eu não gosto de salão de beleza. Acho o cheiro estranho, as conversas em sua maioria deprimentes e francamente desinteressantes e tudo aquilo basicamente muito chato. Me sinto como um peixe fora d'água. Quando vou, é pra cortar cabelo e mesmo assim torço para ser rápido. Mas... eventualmente gosto de fazer as unhas e como a minha coordenação motora não é tão boa assim e ainda não descobri jeito de fazer as unhas sem ser em salão,  a ideia de ir a um local dedicado somente a unhas me pareceu interessante e comecei a sonhar com um ambiente silencioso, sem revistas Caras, sem conversas sobre a última esponjinha pra passar base no rosto (eu sei que estou soando antipática,  mas juro que estou tentando ser delicada). Marquei de fazer as unhas e hoje fui lá pela segunda vez.

São algumas centenas de esmaltes enfileirados em prateleiras, um ambiente predominantemente cor de rosa e frequentadores bizarros, entre os quais, é claro, me incluo desde a semana retrasada (!) . Eu chego, pago e espero a minha vez. Ninguém entende o porquê de eu pagar antes. Ninguém acredita muito que eu não quero comprar uma rifa em que serão sorteados um monte de produtos da Mary Kay. Ninguém compreende porque eu não compro um monte de coisas. E eu entro numa onda meio paranóica (idéia,  paranóia,  azaléia...), entro numa onda paranóica e começo a achar que o povo de lá está irritado porque não compro nada. Será só coisa da minha cabeça?  Sabem aquela sensação de que o vendedor está de saco cheio de você ter olhado tudo e só ter comprado algo simples e barato? É essa sensação. A minha percepção pode estar muito maluca, mas eu diria que as pessoas que lá trabalham ficam meio indignadas comigo... Hoje uma vendedora me perguntou assim: "Como é que você não compra nada?". Aí percebi que não era paranóia minha. Respondi que não precisava comprar nada, que não queria comprar nada, que ia ali porque ali tinha tudo que eu precisava para fazer as unhas inclusive uma ampla seleção de esmaltes entre os quais escolher. Chocada, a vendedora: "Então você não compra esmalte? Nunca vi mulher assim!". E eu ali, com uma mão de molho em água quente, as unhas da outra sendo lixadas, o rosa intenso do local me cegando.... respondi: "Agora você viu!".

Juntou-se em torno de mim toda a equipe da loja (OK, são 3 pessoas e uma, a mulher que fazia as minhas unhas, tinha que ficar perto de mim de qualquer maneira). Começou uma sabatina. Queriam saber tudo sobre a minha pessoa. Aí repararam que não uso maquiagem; perguntaram "Mas e se você pudesse comprar todos os esmaltes, não ia querer um de cada?" (ju-ro!); me perguntaram se eu trabalho; que tipo de música eu ouço e acabamos chegando na velha questão "Por que existimos?". Sim, gente, em plena segunda feira...e eu estou sendo bem literal na descrição! Começamos a falar de consumo, de como existe essa idêia muito forte de que mulher tem que consumir certos objetos e serviços pra ser considerada mulher, de feminismo, dos relacionamentos de cada uma delas, de solidão, da morte de pessoas próximas, de como se virar sozinha, de onde mandar carro pra revisão, de um bom lugar para comprar pneu que dá desconto progressivo.... e aí minhas unhas ficaram prontas, no meio da conversa sobre o pneu. E acho que elas me perdoaram por não comprar outras coisas e nem usar esmaltes especiais que custam 3 reais a mais que os outros. Saí de lá com o apelido de "cliente excêntrica". E não sei se volto mais lá. Ainda estou meio chocada, preciso digerir isso!

Marina

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Aquilo de que eu não me desfaço

Hoje estou especialmente reflexiva porque recebi um e-mail de uma pessoa querida, dessas que foi amiga de adolescência e era como unha e carne, com quem a gente fumou o primeiro cigarro, pagou mico, bebeu Hi-Fi falsificado com Fanta em vez de suco de laranja, pulou Carnaval na época em que ainda semi-aturava-axé-apesar-de-gostar-mesmo-é-de-rock-e-mpb, conversou de madrugada, colou na prova, comeu bolo solado, viajou. Enfim. Psicanalista agora, essa amiga. E leitora do blog, que nem sei como chegou aqui, porque há anos não tínhamos contato.

Além desse mail recebi também mais alguns que já estava enrolando há teeeeempos pra responder... Aparentemente o blog continua vivo, mesmo sem eu escrever muito. Aliás,  eu e a vida simples continuamos vivinhas da silva apesar de eu escrever tão pouco.

No momento a vida simples corre tão bem que me sinto uma pessoa cada vez mais feliz e mais realizada. Isso e os problemas, claro. Problemas fazem parte do pacote. Às vezes sou tão intensamente feliz que dá medo. E aí,  na lida de procurar jeitos de lidar com o medo eu só encontro soluções que me melhoram: ser mais generosa, ser mais honesta, ser mais altruísta,  fazer uma bela d'uma autocrítica e por aí vai. Isso e os problemas, lógico. Tem momentos em que quase enlouqueço,  mas isso faz parte de ser eu e já acostumei: resolvi que essa confusão toda é boa, boa demais. 

Eu acho que hoje eu queria dizer mesmo isso: o tempo passa, coisas variadas acontecem (as planejadas, as aleatórias,  as violentas, as maravilhosas, etc.), mas algo sempre retorna. Nessa busca por uma vida mais significativa, por consumir melhor para não ser consumida, por me sentir parte de uma comunidade que se preocupa com o mundo e por isso está atenta à cadeia produtiva, em meio a tudo isso há questões, temas, pessoas, ideias, sentimentos que retornam. Eu peneiro, peneiro, peneiro... Destralho, aí destralho de novo, aí ainda me livro de mais algumas coisas.... Edito, diminuo, simplifico sempre buscando chegar a algo que seja essencial... e algo fica na peneira, há algo que eu guardo de volta dentro do armário; algo precioso, útil ou inútil, prático ou subjetivo, concreto e gasoso como um livro, uma mesa e uma lembrança, algo permanece. Inexplicável,  às vezes o que eu escolho guardar pode ser racionalizado numa tentativa humana de fazer sentido. Viver de forma mais simples tem mais a ver com o que eu preservo do que com as coisas de que eu me despojo. Porque quando eu resolvi ter menos coisas, todas as coisas que eu amava e que me faziam feliz se destacaram. Algumas eu nem conhecia. Antes eu tinha menos do que agora.


Marina Paula

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Tédio e desejo de comprar

Hoje, na hora do almoço, comi rápido e saí para fazer compras. O que eu ia comprar era um mistério total, uma vez que não precisava de nada, ou pelo menos não de coisas que posso pagar nesse momento. 

Dirigi em direção à rua que tem mais comércio no bairro. Um brechó no caminho não me atraiu suficientemente a ponto de parar. A loja de shampoos e sabonetes também não,  afinal de contas tenho esses produtos em casa e comprei um shampoo ontem. Estou precisando de algumas peças de roupas bem específicas que não encontraria por ali. Quebrei a cabeça e não me ocorreu nada de que realmente precisasse ou que pelo menos desejasse comprar. 

Acontece que hoje eu estou bem melancólica e entediada. Nada me anima. A perspectiva de ir ao cinema, a ideia de ir tomar um café e escolher um bom livro, de chegar em casa e preparar alguma coisa gostosa pra levar para almoçar amanhã,  nada disso está me chamando atenção. Estou triste e nada concreto cura a minha tristeza hoje. Os motivos são muito meus... 

O fato é que às vezes eu me assusto com esse estágio de não querer quase nada. Outro dia comprei dois sapatos de que precisava muito e foi ótimo,  mas aquele prazer de sair e comprar qualquer coisa nunca mais existiu em sua forma pura. Quando eu tenho vontade de sair e comprar é como foi hoje: saio, dou uma volta, chego a entrar rapidamente em lojas variadas e vou embora sem comprar nada. Frustrada, acabo achando tudo aquilo um desperdício enorme de tempo e gasolina. 

Isso de querer comprar por comprar é parecido com o que eu fazia com o cigarro e ainda faço com a comida: automaticamente me volto para algo que supostamente é prazeroso em momentos de tédio e desânimo. Problema é que o cigarro só causava mais dor de estômago (parei de fumar há alguns anos), a comida só me deixava meio anestesiada, enjoada, com azia e mais gorda e as compras só encheriam a casa de coisas inúteis e consumiriam meu dinheiro. E isso tudo tem a ver com tédio,  com um tédio existencial enorme e tosco... 

E eu me sinto um pouco desprotegida, assim sem recursos superficiais para me defender desse tédio,  para fingir que essa tristeza não está acontecendo. Curar tudo com um cigarro, um chocolate ou uma sacola de compras era fácil e parecia eficaz em tempos passados. Hoje sobra o que? Hoje como é que eu me acalmo? Meu expediente de distrações e coisas prazerosas está minguado e já tenho pedalado demais, assistido a seriados em excesso, lido bastante, arrumado a casa... Acho que em alguns momentos a vida é meio chata mesmo e não há nada que possa ser feito a respeito disso a não ser continuar vivendo e esperar a sensação ruim passar sem dar bola demais pra ela, sem deixar também que ela cresça. Comprar alguma coisa não vai fazer passar. Nem comer, nem fumar, nem fazer qualquer uma dessas coisas que acabam sendo destrutivas e depois deixam a gente com ressaca moral... 

Marina
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